O deputado federal Rodrigo Valadares (PL-SE) caminha para assumir a presidência do Partido Liberal (PL) em Sergipe a partir de abril de 2026, com o ambicioso plano de disputar uma vaga no Senado como o principal nome bolsonarista no estado. No entanto, seu histórico de alianças frágeis e supostas traições políticas acumulados desde o início da carreira dificulta seu projeto, deixando em xeque sua capacidade de unir forças para uma campanha que se anuncia árdua.
A trajetória de Valadares na política sergipana, iniciada em 2018, é marcada por uma longa lista de desencontros com ex-aliados, que hoje formam um mosaico de opositores e descontentes. Eleito deputado estadual naquele ano pelo PTB, numa coligação que incluía o PT e exibindo fotos com lideranças petistas de Sergipe, como o ainda Secretário de Governo do presidente Lula, Marcio Macedo, Valadares rapidamente rompeu com a base da esquerda ao filiar-se ao PSL em 2019 – partido que, à época, era o reduto de Jair Bolsonaro e seus aliados. A manobra foi vista como uma traição flagrante pelos petistas sergipanos, que o acusaram de oportunismo em busca de holofotes nacionais.
O padrão de rupturas se repetiu nas eleições municipais de 2020, quando Valadares comandava o PSL em Sergipe. À frente do partido, ele teria prometido recursos do Fundo Eleitoral a candidatos da legenda, que contraíram dívidas de campanha com a expectativa de apoio financeiro. Um caso notório foi o da candidata a prefeita pelo PSL em Nossa Senhora do Socorro nas eleições de 2020, Eliana da Sopa. Segundo ela, a dívida contraída “por culpa de Rodrigo Valadares” chegou próximo ao valor de R$150 mil e nenhum suporte da parte dele foi dado a ela e nem aos candidatos a vereador.
Outro insatisfeito é o ex-vereador Cabo Amintas, que foi candidato a reeleição em Aracaju também nas eleições de 2020. Amintas deu várias declarações contra a conduta de Rodrigo Valadares, quando à frente do PTB e do PSL, na distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral.
O resultado foi desastroso: O PSL, maior partido à época, não elegeu vereadores em Aracaju e o deputado estadual saiu das eleições sem uma base sólida de apoio local, isolado em meio a reclamações de abandono por parte de seus antigos companheiros de chapa. O PSL passou para o comando do ex-deputado André Moura.
Nos anos seguintes, Valadares buscou redimir sua imagem junto à direita para viabilizar a eleição à Câmara dos Deputados em 2022. Foi aí que ele cortejou lideranças bolsonaristas, como o influenciador Luizão DonaTrampi – que concorreu a deputado estadual com apoio de Bolsonaro –, além de grupos como o Direita Sergipana, a direita Tobias Barreto, Conservadores de Itabaianinha e outros grupos no interior estado, além de lideranças religiosas. Com esse respaldo, Valadares conseguiu dissipar a pecha de “esquerdista” que o perseguia e capturou votos da direita, garantindo seu mandato na câmara federal. “Foi uma virada estratégica”, admitiram aliados da época, que viram no apoio unificado uma chance de consolidação.
Mas a estabilidade durou pouco. Em 2023 e 2024, Valadares mais uma vez priorizou interesses pessoais, abandonando aliados chave para articular, em Brasília, o apoio de Jair Bolsonaro à candidatura de sua esposa a uma vaga na Câmara Municipal de Aracaju. Nesse processo, ele cortou relações com o influencer Michel Noticias, da direita de Tobias, se distanciou do deputado estadual Luizão e deixou de lado lideranças e grupos de direita que o haviam impulsionado anos antes. Figuras históricas como Lúcio Flávio e Flávio da Direita, que investiram tempo e recursos em sua campanha federal, foram deixados à própria sorte, sem qualquer endosso ou visibilidade. “Ele sempre escolhe o que lhe convém no momento, sem lealdade”, confidenciou uma fonte próxima a um desses ex-aliados, que preferiu não se identificar.
O ápice do desgaste veio em 2025, quando Valadares conseguiu tomar as rédeas do PL em Sergipe – partido que, por décadas, era domínio da família Amorim no estado. A manobra provocou um racha imediato entre os aliados da prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, e o deputado, expondo novamente seu viés individualista. Apesar das polêmicas em torno da saída de Edivan Amorim do comando do PL, cujas reais motivações ainda não são claras ao público, em entrevista recente, Eduardo Amorim – irmão de Edivan – acusou Rodrigo de “ambição desenfreada” e da traição fazer parte da natureza dele.
Valadares já se projeta publicamente como o único candidato bolsonarista viável no estado para 2026, ignorando o colega Luizão DonaTrampi, que já teria obtido aval direto de Brasília para sua própria pré-candidatura. “Eu acredito que os dois podem concorrer e somar forças pela causa”, reforçou Luizão em recente declaração, sinalizando uma tensão velada que pode se transformar em guerra aberta nas urnas.
Diante desse cenário de desconfiança generalizada por parte da classe política, o deputado deve encontrar dificuldades na formação de chapa para deputado federal e deputado estadual. A debandada do grupo dos irmãos Amorim – que inclui o prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho – e possivelmente da prefeita Emília, deve esvaziar o PL. O histórico de insatisfações e desconfiança com Rodrigo deve dificultar a vinda de novos nomes dispostos a compor com ele.
A grande interrogação paira sobre o futuro político de Rodrigo Valadares: ele conseguirá reconquistar o apoio dessas lideranças traídas para uma campanha ao Senado que exigirá unidade absoluta da direita em Sergipe? Analistas locais apontam que, sem uma base coesa, o projeto bolsonarista em Sergipe corre o risco de implodir, beneficiando adversários de centro e esquerda. Por enquanto, o deputado segue articulando nos bastidores, mas o custo de suas escolhas passadas pode se revelar fatal.



