Em um cenário político fervendo, as eleições de 2026 para o Senado Federal em Sergipe prometem ser a mais disputada da história do estado. Com sete pré-candidatos empatados em pesquisas recentes, a corrida pelas duas vagas disponíveis mobiliza nomes de peso de espectros ideológicos opostos, do petismo histórico ao bolsonarismo raiz. No centro desse furacão, o governador Fábio Mitidieri (PSD), que busca uma reeleição por WO, aposta em uma estratégia de “grande palanque”: reunir todos os postulantes sob sua liderança para diluir forças adversárias. No entanto, velhas rusgas e incompatibilidades ideológicas transformam o plano em um tiro no pé, afastando potenciais aliados e expondo fragilidades na sua própria trajetória eleitoral.
Filado ao PSD, partido de centro, a ambição de Mitidieri não é segredo. No cenário nacional, seu partido é presidido por Gilberto Kassab – que já declarou abertamente trabalhar pela candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD).
Indo contra essa orientação, Fábio Mitidieri segue flertando tanto com Lula quanto com o centrão, tendo se movimentado nos bastidores para se posicionar como o articulador-mor da eleição senatorial. “Quero um palanque amplo, que represente o Sergipe inteiro, do litoral ao sertão”, declarou Mitidieri em entrevista recente à Rádio Metropolitana FM, ao reafirmar apoio ao ex-deputado André Moura (União Brasil) como um de seus principais indicados. A ideia é simples: ao atrair nomes como Alessandro Vieira (MDB), Rogério Carvalho (PT), Edvaldo Nogueira (PDT), Rodrigo Valadares (PL) e até o ex-senador Eduardo Amorim (PSDB), Mitidieri evitaria uma fragmentação que beneficie outsiders e consolidaria sua imagem de estadista conciliador – essencial para quem almeja o Senado em uma chapa que pode incluir disputas para governador.
Pesquisas recentes confirmam o caos salutar da disputa. Um levantamento do Instituto ECM/Cinform, realizado nos 20 maiores municípios sergipanos (que representam 69% do eleitorado), aponta um empate técnico entre os sete principais nomes, com intenções de voto variando de 8% a 11%. Outro estudo da Real Time Big Data reforça o equilíbrio, destacando o alto índice de indecisos (acima de 30%), o que abre espaço para alianças estratégicas – ou para desastres diplomáticos. “É uma eleição de faca de dois gumes”, analisa o cientista político João Paulo Neves, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS). “Sergipe nunca viu tamanha pulverização. Mitidieri poderia surfar nessa onda de unidade, mas suas tentativas de colar nomes incompatíveis só geram ruído e perda de credibilidade.”
O calcanhar de Aquiles da estratégia governista são as rusgas não resolvidas, que transformam eventos de campanha em campos minados. Tome o caso de Alessandro Vieira, senador em exercício pelo MDB e um dos favoritos nas pesquisas com foco na capital. Vieira, conhecido por suas investigações anticorrupção, simplesmente recusa qualquer diálogo com Edvaldo Nogueira, ex-prefeito de Aracaju e pré-candidato que representa o establishment local. A inimizade remonta a embates na gestão municipal, com acusações mútuas de obstrução em projetos de infraestrutura. “Não subo em palanque com quem prioriza conchavos em detrimento da transparência”, disparou Vieira em uma live recente, ecoando trocas de farpas que já azedam reuniões partidárias. Para Mitidieri, que aposta no desgaste da gestão de Emília Corrêa (PL) e busca o espólio de Edvaldo para mobilizar votos na Grande Aracaju, essa fratura é um baque: eventos conjuntos foram cancelados duas vezes nos últimos meses, segundo fontes do Palácio dos Despachos.
Não para por aí. André Moura, o “pistoleiro do impeachment” – como o apelidam petistas –, é outra bomba-relógio no arsenal de Mitidieri. O ex-deputado federal, que articulou a cassação de Dilma Rousseff em 2016, é persona non grata no PT sergipano. Sua pré-candidatura, endossada pelo governador, já provocou reações furiosas da ala esquerda. “Moura representa o golpismo. Qualquer aliança com ele é traição aos princípios”, afirma uma liderança petista sob anonimato, citando o histórico de embates no Congresso. Mitidieri, que publicamente apoia Lula para 2026, tenta equilibrar o ato: em julho, ele vetou explicitamente o apoio a Rogério Carvalho, Senador pelo PT, para não alienar Moura e a direita. Resultado? O PT local ameaça boicotar eventos do PSD, fragmentando o que poderia ser uma frente ampla contra a direita.
A cereja no bolo das discórdias é a incompatibilidade entre Rogério Carvalho e Rodrigo Valadares. O petista, que busca reeleição com o discurso de continuidade lulista, não pisa no mesmo palanque que Valadares, deputado federal que migrará para o PL – o partido de Bolsonaro, que ainda carrega o estigma do 8 de janeiro. “PT e PL? Isso é como misturar óleo e água. Não há composição possível enquanto o bolsonarismo não se despir do extremismo”, declarou Carvalho em entrevista ao Infonet, ao criticar tentativas de “puxar sardinha para o centro”. Valadares, por sua vez, acusa o PT de “sectarismo”, e ambos já declinaram convites para atos conjuntos promovidos por Mitidieri. Essa polarização ideológica, somada à multiplicidade de candidatos (seis nomes, incluindo Moura e Valadares), só reforça o risco de o bloco se diluir, mas também expõe o governador como um articulador ineficaz.
Analistas veem o retrocesso claro na pré-campanha de Mitidieri. Em vez de projetar unidade, suas manobras geram memes nas redes e manchetes negativas. Uma pesquisa interna do PSD, vazada para a imprensa, indica queda de 5 pontos na aprovação do governador entre eleitores indecisos, atribuída às “confusões palanqueiras”, entre outros fatores. “Ele está mais isolado do que nunca. A estratégia de ‘todos no mesmo barco’ naufraga porque o barco tem furos em todos os lados”, ironiza Neves.
Enquanto Sergipe assiste a esse teatro de absurdos políticos, uma coisa é certa: a eleição de 2026 não será definida por palanques inchados, mas por quem souber navegar as águas turbulentas sem afundar aliados. Para Fábio Mitidieri, o tempo urge para repensar o roteiro – ou arriscar ver sua reeleição afundar nas próprias contradições. A bola, agora, está com o governador.



